Deitou-se a seu lado. A distância que os separava parecia um fosso. Tentou dormir, fechou os olhos. O pensamento fugiu-lhe, ou melhor passeou pelos labirintos da memória. Lembrou-se de ver um concerto acústico, numa loja em Lisboa. Há quantos anos. Lembrou-se de estar com um amigo. Chegaram horas antes. Foram fazendo tempo.
A salinha foi-se compondo. Nenhum deles namorava. O amigo lançava piropos baixos, que só ele ouvia, a cada rapariga jeitosa que passava. Ele observava.
A alguns metros deles duas amigas sentaram-se. Olhou para as duas, mas o olhar fixou-se numa. Ela olhou para ele, notou que a observava. Desviou o olhar, ele envergonhado também. O artista demorava a chegar. Olhava para ela sub-repticiamente. Notou que ela também o fazia.
O concerto começou. Uma das músicas diz:
E ele pensa: Cala-te. Não estragues o momento. A música acaba. Olha para o músico, e bate palmas.
Uma nova música começa a ser tocada.
Os teus olhos são cor de pólvora e o teu cabelo é o rastilho
Cara de anjo mau, tu deitas tudo a perder
Os seus olhos encontram-se, ela sorri timidamente. Ele sente, mesmo, o seu chão tremer. A troca de olhares demora uma eternidade. Já não se lembra quem o afastou, mas isso também não interessa. Olhar para ela lembra-lhe uma outra música: E o paraíso no teu olhar.
O concerto acaba. Ele ainda fica por ali uns momentos. O músico está a dar autógrafos. Nota que ela também ficou. Passa algumas vezes por ele. Lentamente, como que a dar oportunidade para que ele lhe diga alguma coisa. Ele não tem coragem. De dizer olá. Um simples oi.
Não sabe porque é que se foi lembrar daquele concerto agora, neste momento. Lembra-se da frustração na ida para casa. Lembra-se de uma música lhe lembrar o fracasso.
Eh, pá, deixa-me abrir contigo
Desabafar contigo
Falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
Descontrair-me um pouco
Eu sei que tu compreendes bem
Não se lembra da cara da rapariga, nem de qualquer traço distintivo. Da cor do cabelo ou dos olhos. Nunca soube o nome dela.
Há felicidade a pequenos passos de ti, o medo de falhar, de tentar pode levá-la embora.
Olha para a mulher, chama-a. Ela acorda facilmente, se é que alguma vez estivera a dormir. Tem os olhos vermelhos. Ele pede-lhe desculpa e abraça-a.
Uma outra música lhe vem à mente, mas facilmente ele afasta-a.
E quando te voltar a apetecer seguir em frente,
Agora a música é deles. A letra são eles que a vão escrever juntos…
Ps. Claro que descobriram facilmente de quem são as letras, do grande Jorge Palma.
Há imenso tempo que tinha vontade de escrever algo baseado nas letras dele. Não sei, verdadeiramente, se foi isso mesmo que aconteceu. Mas aqui está mais um texto breve.
Comentem-no, por favor. Gostava de saber a vossa opinião!
Um bem haja com beijokas ou abraços
Tiago Falcoeiras