18.05.07
Dez da noite, e faz ainda um calor sufocante. O chão transpira o calor retido durante o dia.
Tenta seguir a custo. As ruas estão prenhas de gente. Comemora-se a festa anual do Santo da cidade. Haverá um número ínfimo de fiéis assíduos no salão frio da igreja.
Mas, pelo menos uma vez por ano, o Santo é pretexto para comes e bebes, concertos, venda de artesanato e algum desvario sexual.
Coloca-se na fila das farturas.
Enquanto espera, lembra-se dos fins de semana da infância, no Alentejo fronteiriço na aldeia onde nasceram os avós. Uma aldeia pequena, com pouco mais de mil habitantes e que tem a proeza de no largo ter dez tabernas, só no largo, outras há espalhadas e todas conseguem dar o pão nosso de cada dia aos seus proprietários!
Lembra-se de uma manhã chuvosa e fria. Levantara-se por volta das nove horas e a avó dera-lhe quinhentos escudos para comprar farturas. Trouxe um saco cheio, hoje a unidade custa um euro!
Nunca as farturas lhe souberam tão bem, juntamente com uma caneca de café. Naquela aldeia, perdida entre Espanha e o Guadiana e o resto de Portugal.
Na altura o Alentejo era uma maçada. Demasiado frio no Inverno, angustiantemente quente no verão, e com o Pai, de verão e inverno, a lançar a âncora naquela aldeia.
Hoje é da cidade que está farto, farto dos carros na estrada e em cima dos passeios, fartos das pessoas que não sabem sorrir e que só querem saber da vida dos outros para a quadrilhice, da ausência de espaços verdes e da incoerência humana que nos tempos de lazer preenche os centros comerciais. Quer faça frio, quer faça calor.
Aos cinquenta e cinco anos apetece-lhe fugir para o Alentejo. A pré-reforma, ainda que curta, dar-lhe.á o suficiente para ele, e um quintal e uma pequena horta dar-lhe-ão mais alguma folga à carteira.
Um ano depois, numa noite mais quente que esta, numa festa associada a outro Santo, pensará na vida que levava na cidade, ao comprar uma fartura, numa aldeia alentejana.
"Uma fartura e meia dúzia de churros, se fizer favor."
publicado por wherewego às 13:38

17.05.07

Terá sido o primeiro livro de temática gay que li do princípio ao fim.

É difícil dizer alguma coisa sobre o livro que o texto da apresentação do mesmo, a cargo de Fernando Pinto do Amaral, não o já tenha feito.
Confesso que gostei deste Cidade Proibida, de Eduardo Pitta.
Algumas das passagens são mais descritivas e cruas (obscenas?!) do que estamos habituados na nossa literatura. Quiçá se a descrição dos relacionamentos sexuais fosse heterossexual não causaria tanta estranheza, e seriam mais típicas. Aqui Eduardo não faz concessões, quer pintar o quadro da intimidade das personagens, e fá-lo sem paninhos quentes. Sexo, práticas fetichistas, taras e mais sexo encontram-se no livro.
Sendo uma narrativa de temática gay, mas não só, o livro ganha do estilo e capacidade narrativa do autor. Dizia-se na apresentação que não era usual um poeta ter tanta firmeza narrativa. Tem-na de facto. O livro prende, mesmo um leitor heterossexual, desconhecedor, e devo confessar algo avesso, a temáticas gays.
Mas, o que me faz gostar bastante do livro é a crítica social e cultural.

Na página 27, lemos a frase de uma funcionária dos serviços consulares, a Rupert, inglês, que viria trabalhar em Portugal.
“- Portugal? Leia o Beckford, Recollections of an excursion...É de muita utilidade. Vai ver que continua tudo na mesma.”
O livro de Beckford foi publicado em 1853, e fico na dúvida, depois de ler o livro (e o blog), se a crítica é uni ou bidimensional. Eduardo critica só a visão estrangeira de Portugal, ou na realidade critica também a incapacidade lusitana de evoluir?
Nas páginas 40 e 41 discute-se o valor de A Noite e o Riso, de Nuno Bragança, e Portnoy´s Complaint, de Phillip Roth.
Dois livros contemporâneos um do outro, para comparar anglo-saxónicos e portugueses, agora partindo da literatura.
Depois, há o Eduardo do Blog em estilo romanesco. A música, o cinema, a literatura, as classes altas e médias, e as outras, os escritores e os professores universitários, os parasitas, as teses de mestrado (pág. 69 e 70), P D. James, etc...
Resumindo, um dos grandes livros de 2007.

Cidade Proibida é a história do relacionamento entre Rupert, inglês, das classes baixas, e Martim, português da classe alta. Dois mundos diferentes, dois países diferentes, duas sensibilidades diferentes numa cidade proibida.

Afinal não é só o sexo o que divide a cidade, é também o dinheiro, o saber, a cultura, os interesses, a história por trás de cada um.
publicado por wherewego às 16:59

A ausência dos últimos dias explica-se com o trabalho na faculdade, acrescido com o fora desta (loja dos pais) e por ser a semana de casamento do irmão.
Ontem, tive a oportunidade de assistir à apresentação de Cidade Proibida, livro de Eduardo Pitta. Estou a poucas páginas do final do livro, e depois tentarei dar a minha opinião acerca do mesmo, mas a apresentação a cargo de Fernando Pinto do Amaral foi muito feliz (em busca de melhor palavra. A brincar apelidei-o de Director de Marketing do escritor), abrindo o apetite dos muitos presentes.
Até já!
publicado por wherewego às 15:00

14.05.07
Gosto de Sobrenatural, a série de televisão.
Não se pode dizer que é excelente, ou que se tornará um clássico, mas penso que atinge os seus objectivos plenamente. E acima de tudo não tenta ser algo que não é!
Sobrenatural é uma série com tendências adolescentes, com muito sentido de humor, que renova o gosto pelo terror televisivo e que fá-lo sem grandes pretensões.
Tem uma excelente produção e alguns dos episódios estão muito bem realizados, pelo menos no que diz respeito ao objectivo dos filmes de terror. Criar emoção e suspense.

Uma das coisas que mais me agarra à série (são duas, mas comecemos pelo início) é a estrutura narrativa. Os produtores/argumentistas reconheceram a dificuldade de cativar a audiência mantendo sempre a mesma estrutura, vai daí grande parte dos episódios fogem ao sistema princípio, meio e fim, contado pelos protagonistas ou seguindo os seus olhos.
E já tivemos vários exemplos, estrutura normal, começando do fim, e explicando como se chegou aí, in media res, pelos olhos dos protagonistas, dos antagonistas, de um fantasma, etc...

Mas, aquilo que mais me prende é o humor, muitas vezes non sense, mas muitas vezes inteligente e outras conversando com outros textos.
Num dos episódios, a actriz convidada é Linda Blair, a criança de O Exorcista. No final do episódio, em que Blair faz de polícia, Dean pergunta ao irmão se não a achou parecida com alguém...
Num outro episódio, passado em Hollywood, vemos os dois irmãos a fazerem uma visita aos estúdios. O guia convida os interessados a dar um pulo ao set de Gilmore Girls, Sam faz uma cara assustada e foge dali a sete pés. Nota: Sam(Jared Padalecki) participou na série durante algumas épocas, como o namorado de Rory Gilmore, Dean.

Pode não parecer muito cómico, mas só vendo.
publicado por wherewego às 11:53

O nº 2 da Callema está a chegar, com um novo texto deste vosso amigo...
Mais novidades em breve.
tags:
publicado por wherewego às 10:04

A semana passada muitos estranharam o facto de Pinto da Costa não estar presente na apresentação de um biografia sua da autoria de Felícia Cabrita e outra jornalista.
Esuqeceram-se que era um espaço fechado?
Que o papa me perdoe.
publicado por wherewego às 09:59

I´m hooked, ou mais lusitaniamente, estou agarrado.
Spooks é uma série inglesa sobre espiões, em especial sobre os espiões do MI5.
A primeira série aborda, mais pessoalmente, as dificuldades que um dos espiões tem em equilibrar a sua vida profissional com a amorosa. Dizer à namorada que é espião? Convencê-la a viver em perigo por amor?
A série, talvez por ser inglesa, mexe mais com questões pessoais, mesmo quando aborda as razões do terrorismo, do que com efeitos especiais.
É violenta, no 2º episódio, uma das personagens principais (achamos nós) é barbaramente morta, queimada com óleo a ferver.
Existem traições, dentro e fora do MI5, Hugh Laurie (o dr. House) interpreta fugazmente (2 episódios) um dos agentes do MI6.
As storylines não são todas espectaculares, mas estão arraigadas à realidade e por isso mais temíveis. A mentira é vista como o pão nosso de cada dia na vida dos agentes. Mentir para apanhar terroristas, mentir para proteger os nossos entes queridos, mentir por não nos darem o valor devido.
Não sabemos, os próprios produtores o afirmam, se é assim a vida dos espiões, mas pelo menos deram-nos um retrato verosímil, esqueçam o 007, aqui as engenhocas ficam de fora, mas os problemas do dia a dia ganham maior e nova espessura.
publicado por wherewego às 09:07

13.05.07
Mesmo atendendo à duplicidade (masculino e feminino) da palavra mestre, não consigo compreender o que a Paula Bobone faz no programa.
publicado por wherewego às 22:10

12.05.07
Infernal Affairs 2.
Quando vi o primeiro filme da saga, são 3, confesso que não fiquei muito admirado pela qualidade, tinha visto alguns filmes asiáticos (sucessos recentes de Hong-Kong e da Coreia do Sul, nomeadamente) que me tinham, de algum modo enchido (algum)as medidas.
Não achei Infiltrados excelente, porque algo faltava. Víamos a história dos dois infiltrados, mas faltava alguma densidade narrativa e descritiva, que alguns me dizem existir no remake de Scorcese, que ainda não vi.
Numa das últimas visitas à Fnac vi a edição nacional da trilogia completa por 40 Euros. Resisti e decidi investigar no Ebay.
Comprei o 2º filme (8€, já agora) e não resisti a vê-lo, quase imediatamente.
Fiquei agarrado. quase que merece dizer que o primeiro filme vale pelo segundo. Subiu-se a fasquia, evitou-se fazer a sequela da treta para ganhar mais algum...
O segundo filme é uma prequela, começa dez anos antes do primeiro filme e conta todas as teias que envolvem as personagens, conhecidas e desconhecidas.
Descobrimos mais detalhes sobre a(s) infiltração(ões), a sobre as vidas das personagens principais do primeiro filme.
É um filme mais completo, mais denso descritiva e narrativamente. Volta atrás dando-nos uma visão quase nova do primeiro, as personagens, que anteriormente considerava unidimensionais, tornam-se tridimensionais, palpáveis.
O que já era muito bom, torna-se excelente. Salivei com este Infernal Affairs 2. E não vale a pena dizer que já ando a namorar o terceiro, pois não?
publicado por wherewego às 00:11

11.05.07
A crónica é uma arte, acrescentar maior seria redundante.
Iniciei-me nesta arte com Os Meus Problemas de Miguel Esteves Cardoso. Lembro-me que aprendi, ri e pensei. Lendo quase exclusivamente em português existem alguns cronicadores de eleição.
Aprecio bastante Onésimo Teotónio de Almeida, Luís Fernando Veríssimo, o já citado MEC, e outros que me esqueço de momento.
Comprei a semana passada o livro (Intriga em Família) de Eduardo Pitta com os textos do blogue Da Literatura, não sendo um cronista per si, o livro tem crónicas e vale ter em papel. Não serão só crónicas, nem sei se o autor se encara como cronicador quando escreve alguns dos posts, ou se blogger será o nome mais geral e feliz para definir a autoria do que se lê. Sendo um dos meus blogues de eleição não resisti e comprei. Muitos dos textos já os lera, e alguns já os esquecera. Valem a pena!
A primeira metade do livro é mais literária, ou sobre a literatura, daí para a frente o livro vai sofrendo a alteração visível hoje no blogue. Eduardo escreve sobre tudo com saber, opinião e a sua visão. Podemos não concordar, mas teremos de ponderar sobre o ponto de vista.
Ontem, comprei a Sábado, a razão era suficiente, oferecia um livro de João Pereira Coutinho. Parece que vão oferecer mais... se forem todos tão bons quanto este.
JP Coutinho fez-me o mesmo que as crónicas de MEC há quase vinte anos, pensar, rir, quase chorar, sonhar (Hay-on-Wye) e deu-me vontade de ler mais...
João Pereira Coutinho escreve como poucos em Portugal, aprecio bastante os seus textos no
Expresso, pena que tenha de estar na mesma página que Daniel Oliveira, embora quando comparados com estes textos do livro Avenida Paulista percam. Razão? O tamanho. Do texto. Afinal o tamanho importa. Os textos de Avenida Paulista são mais longos, mas nem por isso dados a desvarios. São perfeitos, ou quase. Para mim, os do Expresso sabem a pouco, e por vezes, sabem tão a pouco que chateiam. Que me perdoe JPC. Com a oferta da Sábado tenho lido um pouco mais com prazer,pena que o livro já esteja a chegar ao fim, e que o Intriga em Família tenha ficado para trás, mas já só faltam 60 páginas...
Estes dois livros deram-me fome, fome de ler mais livros de crónicas...
publicado por wherewego às 14:37

mais sobre mim
Maio 2007
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9

15
16
19

20

27
29


arquivos
2011:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2010:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2009:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2008:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2007:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2006:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2005:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2004:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


pesquisar
 
comentários recentes
"Pandev nao mentiu" "Pandev no mintió"
Jornalistas desportivos madrilenos desrespeitam DI...
Don Andrés Amorós Guardiola.....¿Mourinhista?
forcinha amigo :)
se calhar eles arrumam as coisas por secções: mass...
olha que tu também tens as tuas taras a arrumar co...
Já eu tenho no policial um dos meus géneros de ele...
Policiais nunca foi algo que me atraísse muito par...
Na minha opiniao, investir em gato fedorento é sem...
ah... a riqueza de descrever as coisas simples! go...
subscrever feeds
blogs SAPO