06.01.11

A cada dia o seu mal.

Penso que é mais fácil viver o dia-a-dia sem conhecer o futuro, do que sabendo o que vai acontecer aqui e acolá, que (des)venturas nos esperam. Quando isso acontece é-me difícil não retirar alguns medos da cabeça, não pensar em algumas situações.

Este ano está a começar duramente. A ver como continua.

publicado por wherewego às 10:42

05.01.11

Torna-se interessante ler Tempo Contado de Rentes de Carvalho passo a passo com Diário Volúvel de Vila-Matas, as semelhanças são menores que as dissimelhanças, mas a verdade é que já por duas vezes os "apanhei" a falar de casos parecidos, por exemplo, da morte e da sua banalização/utilização mediático-popular e torna-se prazeiroso ver não só as diferenças de opinião, mas de carácter que existem entre ambos.

publicado por wherewego às 14:50

04.01.11

Tenho muitas, quiçá demasiadas, leituras em mão. De um lado puxa-me o Tony Judt, do outro o Vila-Matas, além é o de Lillo, mas há sempre um que, por uma ou outra razão, toma a dianteira. Desta vez é Rentes de Carvalho, com Tempo Contado.

Comecei-o a ler ontem, como quem não quer a coisa, envergonhado, que isto de ler as vivências e os pensamentos pessoais de outrém cria alguma retinência na minha pessoa.

Rentes de Carvalho é sincero, por vezes, talvez, demasiado sincero. Não há aqui a tentativa, pode haver, mas não o aparenta, de esconder ou precaver-se de alguma coisa. Os pensamentos sobre o relacionamento com a mãe, a exasperação que ela que provoca são desconcertantes, talvez porque desconcertante é a diferença de caracteres e espírito, mas também diferente a atitude e hábitos diários. Vejo-me a criticá-lo, como não compreender a pobre anciã, só durante meses a fio? E depois penso nas minhas atitudes, em como sou, e compreendo-o bem. O que choca é a clarividência e coragem de o escrever/transpôr como ele o faz.

Sorrio com a surpresa, quase vergonha como descreve a suite enorme em que o colocam no Estoril. Sorrio com o fado meteriológico, que chova quando ele quer trabalhar, mas que a chuva fuja quando chega à sua aldeia, ali as chuvas serão de outra ordem.

Mas Tempo Contado tem outro dom, parece que leio e vou lendo, talvez mais lentamente do que o normal e as páginas teimam em passar devagarinho. E atenção, não é crítica, é benesse literária.

publicado por wherewego às 11:37

03.01.11

Lembro-me dos westerns serem uma presença assídua na tv enquanto crescia. Lembro-me de algumas cenas de alguns desses filmes, as caravanas em círculo para se defenderem dos índios,  os índios em cima das rochas, várias vezes preparando a emboscada, os irmãos da família Bonanza, o Lone Ranger e o seu companheiro índio, os duelos ao pôr do Sol.

Na colecção de DVDs há alguns westerns, , mas dois deles são dos meus preferidos, são de um italiano, Sergio Leone, um dos meus realizadores preferidos, há-de passar muita água debaixo da ponte para me esquecer de O Bom, o mau e o vilão e de Era uma vez no Oeste.

No primeiro dia do ano, deitei-me no sofá e vi dois outros westerns, El Dorado e The Man who shot Liberty Valance. Começou bem o ano, relembrando outras estrelas, outra forma de fazer cinema, outra linguagem cinematográfica.

 

 Wayne e Mitchum

 

El Dorado, de Howard Hawks, de 1966, conta com John Wayne, Robert Mitchum e um jovem James Caan no elenco.

Houve duas razões fortes para ver este filme, (re)ver John Wayne, agora com um pouco mais de siso em cima, e observar como Hawks conta quase sempre a mesma história, em filmes e géneros diferentes. Uma das coisas que mais me agrada em Hawks é a temática da camaradagem masculina, ao ver este filme lembrei-me de Only Angels have Wings (lá por casa em DVD), com Cary Grant, e que tenho de rever brevemente. (Hawks é um dos meus relizadores favoritos, aconselho Bringing Up Baby, uma comédia brilhante com Cary Grant e Katherine Hepburn e The Big Sleep com Humphrey Bogart e Lauren Bacall). 

Cole Thornton (Wayne) é um pistoleiro a soldo, contratado por um rancheiro rico, Bart Jason, para resolver uma disputa com a família McDonald.

Quando chega a El Dorado, Cole encontra o sheriff local, J.P. (Mitchum), amigo de longa data, que lhe diz que se aceitar o trabalho estará contra ele. Cole desiste do trabalho, depois de levar um tiro de um membro da família McDonald.

Meses depois, Cole voltará a El Dorado, com Mississipi (Caan), depois de descobrir que outro pistoleiro foi contratado em seu lugar e que J.P. sucumbiu ao álcool. Cole volta para proteger J.P.

Hawks descreveu El Dorado como "No story, just characters". Mas entre a  descrição do realizador e a noção de que não há uma história vai um longo caminho, maior ainda se o compararmos com alguns filmes actuais. O argumento é parecido com Rio Bravo, as personagens estão lá todas, mas por alguma razão gosto mais de Mitchum do que de Dean Martin, e Ricky Nelson também não entra neste. Hawks achava que podia melhorar nesta segunda versão, eu prefiro o elenco deste El Dorado, ajudará que o papel feminino seja menos definido, menos forte, em El Dorado são os homens que dominam, é neles que a câmara e a história focam.

Comecei bem o ano, mas ia continuar melhor.

 

Uma das críticas que se fazem aos filmes de cowboys é que são todos iguais. Por acaso, acho que há dois tipos de filmes, os que têm índios e os que não têm, mas por vezes essa crítica tem razão de ser.

Daí que The Man who shot Liberty Valance seja um bom ponto de como a crítica pode ser injusta.

 

 

 The Man who shot Liberty Valance data de 1962 e é realizado por John Ford. Sergio Leone dizia que dos filmes de Ford era o seu preferido porque era o filme em que Ford aprendia alguma coisa sobre o pessimismo. Confesso que o tom acre em que o filme termina foi o que me desconcertou.

Os westerns sempre cantaram o heroísmo dos homens rodeados de índios, era a tentativa de criar a civilização no meio de nada com inimigos por perto, ou tentando manter essa civilização de pé face a bandidos e foras da lei. Com Leone, aparece o pistoleiro cínico, quase amoral, como herói.

Em Liberty Valance temos um fora da lei (Lee Marvin) abjecto que domina quase por completo uma cidade. Tom Doniphon (Wayne) é o garante da estabilidade, um velho cowboy de moral forte, que sonha casar com Hallie, mas antes de a pedir em casamento, vai construindo a casa que ela merece, um quarto e uma varanda. Um dia aparece Ransom Stoddard (Stewart), atacado no caminho por Valance, um jovem advogado que acredita que a lei é mais forte que as armas e que sonha derrotar Valance através dos conhecimentos adquiridos.

O filme começa com o regresso de Stoddard à cidade de Shinbone, no final do século XIX, para o funeral de um amigo, pouco já resta do oeste que iremos ver daí a pouco. Stoddard, agora Senador, conta a história a 3 jornalistas, sobre o que aconteceu quando chegou à cidade, conta a história do Homem que matou Liberty Valance.

O mundo que Stoddard relembra tem pouco a ver com o mundo dos filmes de Ford. O sheriff é um acagaçado de todo o tamanho, bem como o resto da cidade. O mau da fita faz o que quer, quando quer e ninguém se atreve a contradizê-lo, Doniphon é o pequeno foco de luz, o único entre Shinbone e o caos. Quando Stoddard chega, a esperança instaura-se, já não através do poder do fogo das armas, mas da palavra, dos argumentos, da lei escrita.

No final, Valance morre e a ordem pode ser então inaugurada, mas como ele morre e a forma como ela é inaugurada é o que faz deste filme um clássico.

Ao vê-lo, relembrava-me de Era uma vez no Oeste, de formas diferentes são dois adeus ao western, homenagens ao género. Um canta o final daquele mundo, triste com o passado que já lá foi, o outro abandona o oeste e as histórias contadas, olhando para o futuro, mas reconhecendo que vai ser diferente do passado.

 

Já vos disse que comecei bem o ano?

 

Mais não digo, vejam-no.

publicado por wherewego às 20:54

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