20.06.06
Ontem, na última aula deste semestre tivemos um debate sobre eutanásia.
Já sabia que eles (os alunos) tinham pesquisado pouco, por isso dei um exemplo e a partir daqui começámos a discussão.
Este foi o exemplo.
Um médico, professor numa prestigiada faculdade de Medicina, dirige-se aos seus alunos. Fala-lhes da necessidade de manter a mente aberta e de rever velhos clichés que a passagem do tempo ameaça declarar obsoletos. Fala-lhes, em suma, da necessidade de a humanidade e, em concreto, a profissão médica, começem a aceitar a ideia de uma morte digna e, mais do que isso, libertadora, em alguns casos limite.
Para convencer o seu auditório, o médico cita-lhes um caso real, de um dos seus pacientes, precisamente aquele que o fez repensar as suas opiniões sobre a eutanásia:
- Reparem, o meu doente não funciona por si próprio: não fala, não entende nada do que lhe dizem, sofre terríveis depressões, acessos incontroláveis de choro, que às vezes duram minutos ou até horas, com grandes espasmos de dor. Incontinente do aparelho urinário e dos intestinos, precisa que lhe mudem continuamente a roupa. A sua digestão é problemática e é rara a vez que não termina em vómitos.
Sinceramente, isto é vida? Não seria melhor libertar o meu doente do seu horror e a sua família do sofrimento de estar pendente de uma pessoa assim, com a qual é impossível conviver?

O exemplo é forte, a descrição magoa a dignidade humana e começámos a discutir a definição de Eutanásia, Distanásia, Ortotanásia, o valor da vida, o direito que alguém tem de acabar com ela, cuidados paliativos e afins.

Como sempre acontece nestes casos, falaram em absoluto, fizeram muitos paradigmas, relativizaram pouco. Fiz, como faço sempre, o papel de advogado do diabo, tentei sempre desarmar o argumento deles, quando os colegas não o faziam.

Quando achei que o debate estava quase no fim, acabei de ler o texto.

O professor submeteu a sua proposta à votação e a maioria dos alunos presentes, após se referirem à eutanásia activa, passiva e esboçarem uma série de considerações, decretaram que sim, que o mais humano era libertá-lo do seu horror.
O professor, então, empenhou-se em mostrar uma fotografia do paciente. Introduziu um diapositivo na máquina e todos os presentes puderam contemplar, no quadro de projecção, um bebé de seis meses, rechunchudo e saudável.
Não, não é brincadeira. Isto aconteceu numa aula da Faculdade de Medicina da Universidade de Navarra, quando muitos alunos já se tinham decidido pela tese humanista: libertar a criatura dos seus sofrimentos e dores.

Interessante, não é? Ou cínico, dirão outros. Hipócrita, alvitarão ainda alguns.

É óbvio que o texto não é inocente, que o texto tem um objectivo "político", mas serve para nos lembrar que nestas situações nem tudo é branco e preto, e que cada lado do argumento utiliza o seu caso em prol da sua opinião, muitas vezes duma maneira convincente, mas pouco realista. Não tentei defender ou atacar um dos lados da questão, somente lhes tentei lembrar de que muitas vezes o que nos dizem é relativo e que cada caso é um caso.

publicado por wherewego às 08:46

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