05.11.08
João Aguiar foi um dos meus autores favoritos durante anos. Continua a sê-lo. Li-lhe os livros quase todos, e entre os favoritos destaco o incontornável A Voz dos Deuses, bem como a trilogia de Santo Adriano (Os Comedores de Pérolas, O Dragão de Fumo e A Catedral Verde), este último será o meu favorito.
A partir de 2001, comecei a desiludir-me com os livros de Aguiar.
Achei desnecessário o Diálogo das Compensadas, quiçá obra mais interessante se vertida para reportagem, como desnecessário O Sétimo Herói, pastiche pouco concreto que tenta glosar o fantasia, com base numa antologia que o autor comprou na FNAC (numa das entrevistas o autor dizia que tinha sido tentado a descobrir se conseguia fazer melhor do que os contos que tinha lido. Podia ter, das duas uma, ou escolhido um melhor canon ou olhar para a fantasia que já fizera anteriormente, de uma forma mais séria, mesmo a brincar.
Uma Deusa na Bruma foi um suplício, sem ver objectivos claros. Saltei O Jardim das Delícias e Lapedo – Uma Criança no Vale. E voltei a sorrir com O Tigre Sentado.
Foi assim que olhei, num misto de curiosidade e receio, para O Priorado do Cifrão, uma obra conscientemente irónica e crítica ao boom da literatura de teorias da conspiração, com foco na obra de Dan Brown.
Gostei? Bastaria o regresso de Santo Adriano para me aproximar emocionalmente do livro. Felizmente, faz mais do que fazer regressar o herói da trilogia anteriormente citada.
O Priorado do Cifrão goza com toda a histeria (editorial, inclusive) à volta dos acontecimentos relacionados com os best-sellers baseados em teorias da conspiração, mais ou menos esotéricos, que (opinião dos personagens do livro) são má literatura, má exegese, má História, mas que conseguem o sucesso a partir da má educação dos seus leitores, e do peso dos grupos transnacionais e transsectoriais de que as editoras fazem parte.
Para isso, João Aguiar usa e abusa do seu conhecimento dos gnósticos e das discussões no seio da Igreja Cristã ao longo dos séculos. O crítica ao país real e a homossexualidade são temas recorrentes na sua obra, que aqui continuam a persistir.
A história é recambolesca? Não mais do que muitas outras que por aí andam nos escaparates. Mas a figura de Miguel é extremamente portuguesa, nos hábitos (ou em alguns) e no modo de ser. As mortes são mais que muitas, as organizações em combate também, e não falta a presença de agentes do MI5, comparados ou comparando-se com a Judite portuguesa ou com o SIS.
João Aguiar fez o que não tinha feito em O Sétimo Herói, criticou um género de forma séria, nunca perdendo o humor. O que é sempre uma mais valia.
Dentro da produção do autor neste novo milénio é, para mim, o melhor, dos que li. No conjunto da sua obra não envergonha.
Um livro a descobrir, para rir e concordar com muitas das críticas que são feitas. Pensando no que lemos e porque lemos, e na necessidade de ter uma atitude crítica perante o que é lido.
Altamente recomendável.
PS. Os clichés estão todos lá. Se não estivessem, a glosa teria sido pouco eficiente.
A crítica feita aos grandes grupos editoriais (que detêm várias editoras)é certeira, e certamente pessoal. Este é o primeiro livro de Aguiar pela Porto Editora, e há lá no meio considerações de um autor (Adriano, quem mais?) sobre o tratamento deste grandes grupos.
PS2. Uma vez perguntei a João Aguiar se ressuscitaria Santo Adriano. Ele respondeu que de momento, Adriano estava morto, por assim dizer.
Aguardo com ansiedade mais uma ressurreição deste "Santo".
publicado por wherewego às 11:23

Hás-de emprestar aqui à madrinha/afilhada para ela ler nos tempos... no tempo em que conseguir :)
beijitos
MM
Anónimo a 9 de Novembro de 2008 às 17:24

É um dos meus escritores favoritos!
O que mais gosto é a Voz dos Deuses - por uma questão de espadas.
Um abraço
Terráqueo Intergaláctico a 13 de Novembro de 2008 às 05:37

O Clube de Leitores da livraria Bulhosa, em Campo de Ourqiue vai ter a presença do autpor João Aguiar, dia 17 Março, às 18.30. Será debatido o seu livro
Rute Silva a 3 de Março de 2009 às 18:05

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Anónimo a 4 de Janeiro de 2010 às 23:33

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