25.09.08
Olhava para ela. Os dois sabiam da existência um do outro. Ela fazia-se despercebida, ele, demasiado inseguro, envergonhado ali estava. Há dez minutos.
Olhava para o corpo dela, sentado, a cara denotava desinteresse, ia teclando no computador mais como desculpa. Compreendia que o evitava.
Levantou-se. Os olhos dela olharam rapidamente para ele. Depois para o computador.

Voltou a sentar-se. Olhou para o relógio. Estou aqui há dez minutos.
Voltou a levantar-se. Dirigiu-se corajosamente a ela.
- Demora muito? A senha dizia que ia ser atendido em cinco minutos, já passaram dez!
Ela desculpou-se e atendeu-o. Desinteressadíma, pouco profissional e lacónica.
publicado por wherewego às 13:15

21.01.08
-Olá!
-...
-Sinto-me velho, hoje. Quase tão velho como tu. Velho, sem paciência, descarnado, sem pele.
- Deves estar velho mesmo. Descarnado? Com tantas peles penduradas?
-Sim, eu sei. Gordo, irascível. E velho, um velho de 48 anos. Com um filho que não conhece, que não percebe, que não vê. Um filho ausente, mesmo quando não sai de casa.
- E uma mulher que cada vez mais se afasta, foge, se esconde de ti.
-Tinha medo de o pegar, quando nasceu. Sabes? Parecia demasiado frágil, para um tipo sem jeito como eu. Para um tipo que partia copos todos os dias, copo, que partia um copo todos os dias. E olhar para ela, uma estrela naquele quarto. Sorrindo, cansada e dorida. Também de mim. Como se aquele raio que saíra dela podesse fazer-me brilhar. Chamuscou-me.
-Não sei se tem medo de ti, mas...qualquer dia não a encontras. Abafa-la demasiado.
- Como me hei-de dar com os outros, mesmo os do meu sangue se não me percebo a mim mesmo? Se não aceito quem sou. Se não gosto de mim...mesmo quando os outros gostam.
-Ela sabe que não sabes se gostas dela. Pelo menos, na maior parte das vezes.
- Ironia. Porra de realidade. Sentir o amor dos outros, o carinho e não saber retribuir. Evitar olhar nos olhos, ou olhando não saber sorrir, não me interessar pelo que dizem. Fartar-me do som das vozes deles, e ansiar pelo som da minha não voz, dos meus não pensamentos. Sorrir por não reagir. Ou reagir não agindo.
- ...
-Não dizes nada? Ou respondes afirmativamente, com o silêncio? Juntando-te a mim na minha opinião?
- Não consigo pensar contigo a falar. Não te calas. Aliás, é esse o teu problema. Falas sempre, mesmo quando não te ouvimos. Mesmo quando não pensas. As mãos não param, a respiração aumenta, o pé bate no chão, para cima e para baixo.
-Vejo um jovem de vinte anos, que mora na mesma casa que eu. Não gostava de o pegar em pequeno. Não tinha paciência para ele, para as perguntas, para os porquês, demasiado agarrado ao trabalho, ao desejo de ser melhor, aos jornais. à realidade. E ele perguntando, porquê, pai? Porquê?
Andando, correndo, tirando a coisas do lugar. Vendo tudo com as mãos, e por vezes com a boca. Porquê, Pai? Lambendo, roendo e mordendo. Porquê?
-E ela, ali, a olhar para os dois. Sorrindo. Triste para ti, tentando compreender o que nem tu sabes explicar. Esperando que entendesses o filho que te deu.
- Mordendo uma caneta e ficando com a boca cheia de tinta. Cuspindo para o monitor. Metendo os dedos, e sujando a parede. Porquê, filho?
-Triste, quando o agarravas por uma orelha. Ou quando lhe davas uma ou duas palmadas, a chamavas, e colocando-o fora do escritório, fechavas a porta. Entre ti e eles.
- Que saudades desses momentos.
- Imaginas as lágrimas de um e de outro?
- E aqui estou eu, num quarto de hospital.
- E eles vêem visitar-te?
-Porquê?
publicado por wherewego às 01:27

10.10.07
Quando os outros queriam ser bombeiros ele queria ser leitor. Ainda antes de saber ler que andava com livros de banda desenhada atrás.
Lembra-se de dizer ao pai que não precisava de aprender a ler, construía as suas próprias histórias com base nos desenhos.
Pena que o ordenado de leitor seja inexistente. E cada vez gasta mais dinheiro com os livros, que são caros e marcam pela ausência de revisão.
Mas, ele gosta de todos os livros que compra, mesmo dos execráveis. Porque um leitor é também um escritor.
Vai alterando a trama, as personagens à medida que lê o livro. Pequenas ou grandes alterações. Vai comparando a sua técnica com a do autor original, adultera factos, mata personagens, acrescenta outras.
Ler é também escrever... o que seria dele se somente lesse o que compra?
Estaria louco...

___________________________________________________________________

Ao lado dele um livro antigo, encadernado em couro, amarelecido pelo sol e pelo suor de várias mãos, mas principalmente das suas.
Já não escreve há dez anos, oficialmente, entenda-se.
Aparentemente, reformou-se aos 70 anos. Desde os 17 que publica(va).
Ganhou prémios, fãs, detractores, e um “prémio de Carreira”, como costuma dizer. Foi o canto do cisne, assim que o ganhou desistiu de publicar.
Tinha-se fartado dos críticos de trampa, das editoras que só editam mediante o sucesso imediato, dos leitores que ainda esperam por um livro como o segundo…
E ele que a cada livro vende menos e menos!

Fartou-se!
Escrever, já só para ele mesmo.
Agarrou no livro antigo e leu-o, várias vezes.
Reescreveu-o. Alterou o que quis, o tempo, as personagens, o meio, o fim.
Depois de escrito, leu-o uma vez e reescreveu-o. Repetiu o processo várias vezes, em busca de um livro perfeito.
Há dez anos que o faz, aperfeiçoa a sua obra-prima. Obra irmã que nunca ninguém criticará…
Não haverá leitores ou críticos. Este livro é só dele!
___________________________________________________________________

Sentado,
escrevo.
Num velho caderno que me foi oferecido
há imenso tempo
para que me lembre por quem.
Encontrei-o no meio daquelas coisas
esquecidas e perdidas
que temos em casa.
Achei-o ideal para a história que tenho em mente.
E vou escrevendo.
Até que me apercebo que as folhas acabaram,
mas não a história.
E não tem sentido,
não tem sentido,
terminar a história noutro caderno.
Esta narrativa pertence a este caderno.
Triste pelo fim abrupto,
caminho
até ao pontão.
Olho para o caderno,
numa tentativa muda,
esperando que ele me diga se quer ir inteiro ou separado
de encontro ao frio molhado das águas.
Viro as costas, depois de lançar o caderno.
Escrevo,
sentado.


___________________________________________________________________

Sentado junto ao rio observa o horizonte.
Do outro lado a outra margem, no meio um rio brilhante e calmo.
Pessoas e animais vão passando atrás e à frente.
“Combinei com a João que íamos almoçar lá amanhã?”, “Amanhã? Mas amanhã…”;
“Venha, Bernardo. Porte-se bem! Ai que apanha, Bernardo.”;
“Não sei como conseguem comer aquelas gorduras todas, Deus me…”
Sente-se como um leitor caótico de livros rasgados ao meio. Sente-se uma página rasgada de um livro olhando para outras páginas que são lançadas pelo vento para lado nenhum…
publicado por wherewego às 12:23

03.10.07
Acorda.
São seis da manhã, ainda falta meia hora para o despertador tocar, a bexiga antecipou o acordar.
Levanta-se e vai até à casa de banho ainda com algumas sensações e imagens do sonho que foi interrompido. Faz um esforço para tentar montar o puzzle onírico.

Ele e a namorada. Visitam alguém, mas depois a namorada desaparece de cena.
Há uma rapariga familiar, lembra-se de um desejo de a rever e falar com ela. Fez-lhe um convite para beber um café, convite que ela aceitou.
Encontram-se numa rua apinhada de cafés, por alguma razão, invisível, não conseguem entrar em nenhum. Chove, e os cafés encontravam-se abertos, todos eles. Correm para o carro (de quem é o carro?). Entram, mas ela vai para a parte de trás, entram três gigantes abrutalhados e preenchem os lugares que faltam.
Sorriem, falam, dão-lhe pequenos estalos, sente-se avisado, mas não sabe de que é que o estão a avisar.
Ela, lá atrás, ri, não é um sorriso, é uma risada.


E foi quando acordou. Gosta de tentar relembrar-se dos sonhos, sabendo que adormecido os sonhos fazem mais sentido do que quando está acordado. Há um universo de leis que são obedecidas quando se está dormindo. Quando se acorda nem tudo faz sentido, ou quase nada.
Sabe que à noite a maior parte destes pormenores ter-se-ão perdido no seu inconsciente.
Deita-se novamente, afinal ainda falta meia hora até ao despertador tocar. Sabe que dificilmente adormecerá. Tem o vago desejo de reecontrar os caminhos do sonho, espera uma sequela ou repetição do mesmo.
Lembra-se de em criança ter um sonho recursivo e repetido. O sonho, de que não se lembra claramente, era uma repetição de algo anormal, e que ao mesmo tempo, e se calhar por isso mesmo, lhe metia medo. Lembra-se de com seis ou sete anos acordar lavado em suor, e com medo de voltar a fechar os olhos.
Agora que pensa nisso lembra-se de sonhos em que queria correr e não conseguia. Por mais que tentasse o corpo só obedecia em câmara lenta. Ninguém corria atrás dele, ele não fugia de nada ou ninguém, mas a angústia de não andar normalmente, a angústia de esforçar todo o corpo e os músculos para dar um passo normalmente. Lembra-se de acordar extenuado e dorido.
Levanta-se com o toque do despertador, não adormeceu sequer.

Sente-se nostálgico, e atribui a culpa ao sonho. Como é possível sentir-se nostálgico por alguém que não reconheceu? Por alguém sonhado? Estará o seu subconsciente a transmitir-lhe alguma mensagem?
Durante todo o dia sente-se incompleto. Se há coisa que o aborrece é não saber dar nome a alguém, ou situar alguém, passa largos minutos a tentar descobrir de que filme conhece aquele actor, de onde conhece aquela pessoa que lhe sorriu e perguntou como ia. Hoje é o sonho que o inquieta.
Tenta fazer um inventário de namoradas, paixões e platonices parecidas.
Vai de autocarro a pensar nelas. Janta com a namorada e dá-lhe menos atenção que habitualmente. Ela pergunta-lhe o que se passa. Responde que nada e permanece ali, entre a realidade e o onírico, tentando fazer uma relação que o satisfaça.
Chega a casa e deita-se, esperando que a cama o ajude a relembrar-se de alguma coisa. Tenta fazer o exercício contrário, em vez de se lembrar das namoradas tenta relembrar-se da rapariga do sonho. Nada. Lembra-se que os olhos o marcaram, mas acha que era mais porque lhe abriam alguma porta para a memória. Volta à lista mental, nenhuma delas tem olhos que o tenham marcado especialmente.
Olhos….olhos…olh…
Adormece.

Acorda sem se lembrar de alguma experiência no império de Morfeu.
Age segundo o seu ritual. Lava-se, veste-se e mete-se no carro até ao comboio. Leva um livro que não consegue ler, a rapariga sem rosto assalta-lhe constantemente a memória.
O trabalho, naquele dia, não rende. Os colegas acham-no mais distante, menos brincalhão e concentrado do que habitualmente.
A namorada telefona-lhe à hora de almoço a perguntar como está, que não lhe telefonou de manhã. Sente preocupação na sua voz. Diz que está cheio de trabalho, desculpa-se com isso para a despachar e dizer-lhe que só a verá no dia seguinte.

Esqueceu-se da namorada nestes últimos dois dias, se não tivesse jantado com ela nenhum pensamento teria tido em que ela aparecesse.
Anda obcecado com a rapariga irreal. Como é que um sonho pode alterar a vida exterior e interior de alguém?

Passou-se uma semana.
Nesta semana comeu pouco, quase nada; discutiu fortemente com a namorada a meio da semana. Às 22h ela telefonou-lhe para saber como estava, já tinha adormecido e começara a sonhar.
Acha que estava a sonhar com a rapariga do sonho quando o toque polifónico com a música I Want you to Want me o acordou, gritou com a namorada, não lhe deu possibilidade sequer de se desculpar, ainda que não existisse razão para isso. Não voltou a sonhar, nem a falar com ela. Cada vez que o telemóvel toca ele desliga-o.

O telefone, em casa, está desligado da ficha, e o telemóvel já quase que não é ligado.
Ontem, alguns amigos estavam à porta de casa com a namorada, mal-humorado espantou-os com fel. Contou algumas verdades desconhecidas de alguns, não se importa que tenha aberto brechas no grupo, espantou-os com a sua (até aí desconhecida) hostilidade.

Vive para alguém que não conhece, que não tem existência. Não pensa na estranheza disto tudo.
Adormece e encontra o objecto da sua obsessão num sonho. Finalmente, ela sorri-lhe e rapidamente o sorriso torna-se num esgar de maldade. O corpo treme-lhe, qual corpo?
Tenta fugir, mas não consegue. Ela aproxima-se dele, que tenta fugir, mas o mais que pode é fazê-lo em câmara lenta.

Encontram-no dois dias depois, deitado, de barriga para baixo, num coma profundo, com um ar de tristeza absoluto. Não reage a nada. De vez em quando grita, por breves segundos, mas um grito que assusta quem o ouve, um grito que relembrarão toda a vida, curta ou longa que seja.

Mais valia estar morto, mas não está, está adormecido, na presença da sua obsessão por uma breve eternidade.

Pós-Título: Os Três Gigantes
Publicado no nº2 da Callema
publicado por wherewego às 13:21

01.09.07
Se, e é algo que deve acontecer, sair com uma criança ao colo, que não seja a sua, e de repente as meninas/raparigas/mulheres ficarem embevecidas com tal visão aproveite algumas dicas.

Ela: Tão gira/o... Olá...Diz olá...Tá envergonhada, tadinha. Não fala comigo.
Tu: Mas eu, pelo contrário, terei todo o gosto em falar...
Ou...
Tu: é gira, não é? Aqui fica o meu nº de telefone. Podes vê-la a qualquer hora do dia.
publicado por wherewego às 19:52

14.07.07
Acho graça ao que as pessoas dizem sobre os meus textos narrativos. Por pessoas entenda-se os meus amigos.
Os que compraram a Callema nº1 acharam piada às Breves Narrativas, fizeram alguns comentários e decidiram discutir um ou outro texto. Na altura, os textos eram pequenos exercícios, formas de se chegar à base, construí-os todos com base numa sensação, numa ideia, numa frase. Construí o que se pode ler para dar esqueleto à raíz.
Com texto da Callema nº2, o processo foi ligeiramente diferente. Depois de ouvir críticas, decidi escrever algo que respondesse a essas críticas.
Se por um lado ouvi, de uma Professora, que era difícil escrever pouco, mas dizer muito, por outro tive algumas críticas, mais uma vez daqueles que me conhecem, que os textos eram pouco cor de rosa, negros, crítica esta com a qual discordo um pouco.
Foi esta a base de "Pós-Título: Os Três Gigantes", escrever um texto que permitisse ao leitor uma maior construção, em que não estivesse tudo descrito, e por outro lado, escrever um texto mais negro, mais triste, menos esperançoso.
E é engraçado a leitura que algumas pessoas fazem, uma amiga minha falava da ligação entre corpo e "alma"/mental que o texto traduz, algo para mim lógico e não tratado directamente ao nível da trama, mas que sobressai.
O que me apraz dizer com tudo isto, é que muitas das vezes não sabemos o que os outros vão dizer sobre o que escrevemos, nem as nossas expectativas, baixas ou altas, são muitas das vezes atingidas, para o bem e para o mal.
publicado por wherewego às 10:34

04.07.07
Olha para o copo, para o whisky dentro deste. Dá mais uma golada.
Sempre se considerou um homem com humor, sempre gostou de rir, e tem pena que já não haja boas anedotas.
Há um mês contaram-lhe uma sobre o Primeiro-Ministro. Achou piada, não tanto pelo sentido de humor, mas...pela crítica, por...sabe lá, uma anedota é também um curto tratado sociológico.
Poucos dias depois, contou-a a dois colegas durante um coffee-break.
Enche o copo mais uma vez.
Um dos colegas chibou-se, o circo começou e o pão foi oferecido pelas televisões, rádios e jornais.
O telemóvel não mais parou, uma semana depois disseram-lhe que estava demitido.
Bebe mais um gole...
"Porra! E o pior é que contei mal a anedota..."
publicado por wherewego às 16:38

21.05.07
Espero o café enquanto escrevo num caderno preto.
Tento imaginar tramas e personagens.
O café chega ao mesmo tempo que uma rapariga de cabelos pretos entra. Com uns olhos tristes, vem apropriadamente de preto. Encarna a beleza triste.
Senta-se numa mesa, pede um café e acende um cigarro. O café esfria à medida que o cigarro é compulsivamente fumado. Ela olha pela janela. Para lado nenhum, talvez para dentro de si. E os olhos tristes, negros, teimando em olhar o vazio.
Decido escrever algo aproveitando a triste musa. Enquanto escrevo, e indeciso quanto a um dos atributos, levanto a cabeça para olhar para ela, desvaneceu-se, saiu.
Apropriado...
publicado por wherewego às 11:01

18.05.07
Dez da noite, e faz ainda um calor sufocante. O chão transpira o calor retido durante o dia.
Tenta seguir a custo. As ruas estão prenhas de gente. Comemora-se a festa anual do Santo da cidade. Haverá um número ínfimo de fiéis assíduos no salão frio da igreja.
Mas, pelo menos uma vez por ano, o Santo é pretexto para comes e bebes, concertos, venda de artesanato e algum desvario sexual.
Coloca-se na fila das farturas.
Enquanto espera, lembra-se dos fins de semana da infância, no Alentejo fronteiriço na aldeia onde nasceram os avós. Uma aldeia pequena, com pouco mais de mil habitantes e que tem a proeza de no largo ter dez tabernas, só no largo, outras há espalhadas e todas conseguem dar o pão nosso de cada dia aos seus proprietários!
Lembra-se de uma manhã chuvosa e fria. Levantara-se por volta das nove horas e a avó dera-lhe quinhentos escudos para comprar farturas. Trouxe um saco cheio, hoje a unidade custa um euro!
Nunca as farturas lhe souberam tão bem, juntamente com uma caneca de café. Naquela aldeia, perdida entre Espanha e o Guadiana e o resto de Portugal.
Na altura o Alentejo era uma maçada. Demasiado frio no Inverno, angustiantemente quente no verão, e com o Pai, de verão e inverno, a lançar a âncora naquela aldeia.
Hoje é da cidade que está farto, farto dos carros na estrada e em cima dos passeios, fartos das pessoas que não sabem sorrir e que só querem saber da vida dos outros para a quadrilhice, da ausência de espaços verdes e da incoerência humana que nos tempos de lazer preenche os centros comerciais. Quer faça frio, quer faça calor.
Aos cinquenta e cinco anos apetece-lhe fugir para o Alentejo. A pré-reforma, ainda que curta, dar-lhe.á o suficiente para ele, e um quintal e uma pequena horta dar-lhe-ão mais alguma folga à carteira.
Um ano depois, numa noite mais quente que esta, numa festa associada a outro Santo, pensará na vida que levava na cidade, ao comprar uma fartura, numa aldeia alentejana.
"Uma fartura e meia dúzia de churros, se fizer favor."
publicado por wherewego às 13:38

29.03.07
Procurei a sua mão no escuro e coloquei-a na minha, apertando-a.

Confesso que nunca percebi, ainda tenho dificuldades, em perceber as mulheres, juntando a isto o timing a minha vida amorosa fica contada, pelo menos parte dela.
Nunca entendi o disse que não disse e o não disse que disse próprio das mulheres. Nunca percebi no sorriso, no riso, no olhar algo mais do que aquilo mesmo.
Ela era a minha melhor amiga, morávamos distantes um do outro, mas as cartas mitigavam qualquer distância. Víamo-nos de vez em quando, ríamos, conversávamos, ela buscava a minha presença e eu a dela. Nunca pensei nela de outra maneira que não como amiga, não porque não gostasse dela, mas porque me via inferior, inadequado, ela era inacessível.
Um dia alguém me disse que ela gostava de mim, e eu que não, como era possível? De mim?
Passaram-se meses, as cartas continuavam a fluir, e os meus pensamentos caminhavam de vez em quando para aquela conversa. “Ela gosta de ti.”
Convidei-a para ir ao cinema. Falámos um pouco, comprámos água e pipocas. Depois de acabadas as pipocas procurei a sua mão no escuro e coloquei-a na minha, apertando- -a.
Passámos assim os últimos 30 minutos de filme, de mão dada, mas a mão dela estava frouxa, senti-lhe um misto de sentimentos, por um lado não respondia como eu esperava, por outro não a tirou bruscamente. Manteve-se ali, de encontro à minha numa frieza constrangedora, mas ao mesmo tempo como prova de uma amizade enorme.
Levei-a a casa, falámos um pouco mais e deixei-a imerso nos meus próprios pensamentos, sem termos tocado no que tinha acontecido.

Nessa semana descobri que namorava há dois meses, pensei na minha mão na dela, e na forma como ela, humanamente e com amizade, me deu a sua resposta, sem articular uma única palavra.
Chamei-me de estúpido umas quantas vezes, teria perdido o amor da minha vida?
Vi-a com alguém que não conhecia, com alguém que invejava por uma questão de timing e de incompreensão.
Claro que é possível que ela nunca tenha gostado de mim.
publicado por wherewego às 11:00

mais sobre mim
Fevereiro 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
15
16
17
18
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28


arquivos
2011:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2010:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2009:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2008:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2007:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2006:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2005:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2004:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


pesquisar
 
comentários recentes
"Pandev nao mentiu" "Pandev no mintió"
Jornalistas desportivos madrilenos desrespeitam DI...
Don Andrés Amorós Guardiola.....¿Mourinhista?
forcinha amigo :)
se calhar eles arrumam as coisas por secções: mass...
olha que tu também tens as tuas taras a arrumar co...
Já eu tenho no policial um dos meus géneros de ele...
Policiais nunca foi algo que me atraísse muito par...
Na minha opiniao, investir em gato fedorento é sem...
ah... a riqueza de descrever as coisas simples! go...
blogs SAPO